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Seg, 26 de Julho de 2010 02:34

                                              ERA DUNGA SOMOS NÓS

                                                    Martim Assueros                         

Assisti pela televisão ao último jogo da Copa do Mundo de 2010 e torci pela vitória da Espanha por me parecer propor um futebol mais desportivamente coerente. E lá estava Nelson Rolihlahla Mandela - difícil não distingui-lo na multidão - tornando a festa muito maior. ‘Grande personagem da historia da humanidade’, pensei. Finda a Copa da África do Sul, ficamos a espera da próxima, que será no Brasil. É assim, de quatro em quatro anos, desde 1930.

 

Sobre isto e acompanhado dos meus dois vizinhos pareia-de-meia, vi há três dias o lançamento da Copa do Mundo de 2014, transmitido também da África do Sul, quando foi apresentada a logomarca do evento. Assim que viu a logomarca, um deles comentou que aquele 2014 em vermelho era coisa de comunista, ao que o outro retrucou lembrando a historia de que ‘só restavam dois comunistas na face da Terra: Fidel Castro e um arquiteto brasileiro’. “E, pelo que sei, nem na FIFA (Federation International Football Association) nem na CBF (Confederação Brasileira de Futebol) tem comunista” - concluiu. Ri ao lembrar-me de ter lido, no dia anterior, que o arquiteto Oscar Niemayer compunha a comissão formada para a escolha daquele desenho. Também teria sorrido - se bem que às avessas - se tivesse me lembrado de outros personagens da comissão: Ricardo Teixeira, Ivete Sangalo, Hans Donner, Gisele Bündchen... Uma bolada, não?

O olhar deixa os limites do pensamento e volta a ver televisão. Vejo Ricardo Teixeira, presidente da CBF, que me faz lembrar Jean-Marie Faustin Goedefroid de Havelange, que já presidiu a FIFA, e outras personalidades do mundo da bola. E já que o evento se referia à próxima Copa, ficou difícil não me lembrar da atual, que ainda se desenrolava naquele país.

E, por tabela, me lembrei de Dunga, a esta altura do campeonato já em casa recolhido à derrota. Inicialmente, me lembro de Dunga e de sua declaração. Aquela declaração feita na entrevista coletiva que antecedeu a Copa, quando ele chuta o balde da história e diz que não pode opinar sobre a ditadura militar ou sobre a escravidão - se elas foram boas ou ruins - porque não viveu àquela época. Fico a pensar se ele, mesmo vivendo naquela época, seria capaz de vivê-la.

Em seguida, me lembro de Dunga e da Ilha das Flores. Não a Ilha das Flores que abriga o vulcão Kalimantu e a pequena vila de Larantuka, com sua Semana Santa rezada em português antigo, a leste da Ilha de Java, na Indonésia. Eu me lembrei, aliás, ‘do’ Ilha das Flores: o documentário das coordenadas 30°12'47.58"S 51°10'37.85"W, de Jorge Furtado, filmado na Ilha Grande dos Marinheiros, no delta do Jacuí (Casa do Cinema de Porto Alegre, 1989); o Ilha das Flores que em 1995 foi colocado pela crítica européia entre os 100 curtas-metragens mais importantes do século; o Ilha das Flores que foi rotulado de “materialista” por alguns por mostrar em uma tarjeta a inscrição "Deus não existe", mas que foi considerado “um filme religioso” pelo critico Jean-Claude Bernardet em “O cinema do seculo”, Ismail Xavier (org.), Imago Ediora, 1996, e recebeu da CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil) o Prêmio Margarida de Prata, como o "melhor filme brasileiro do ano" em 1990.

É o Ilha das Flores da prova de História encontrada no lixo. A prova de Historia aplicada à aluna Ana Luiza Nunes, um ser humano, da Escola de Nível Médio Nossa Senhora das Dores: “Uma prova de História é um teste da capacidade do telencéfalo de um ser humano de recordar dados referentes ao estudo da História, por exemplo: quem foi Mem de Sá? Quais eram as capitanias hereditárias? A História é a narração metódica dos fatos ocorridos na vida dos seres humanos. Recordar é viver” - esclarece o documentario.

É o Ilha das Flores da criação de porcos protegida por uma cerca. Feito a cerca da Cerro de Pasco Corporation de Manuel Scorza (Lima, 1928; Madrid, 1983), no livro “Bom dia para os defuntos: balada 1”, que conheci no meio da década de 70, por indicação do artista plastico Alberto Lacét.

É o Ilha das Flores da alusão ao privilégio da espécie humana de ter polegar opositor, telencéfalo altamente deselvolvido e ser livre. E que “Livre é o estado daquele que tem liberdade”. E, cita Cecília Meireles para dizer "Liberdade - essa palavra que o sonho humano alimenta: que não há ninguém que explique, e ninguém que não entenda".

É o Ilha das Flores que tem feição de ‘colagem’ feito o também muito bom documentário “Nós que aqui estamos, por vós esperamos”, de Marcelo Masagão (Rio Filme, 1998), que conheci por indicação de João Lira.

É o Ilha das Flores que conheci ainda jovem (refiro-me mais ao filme - eu, nem tanto), por intermédio da equipe de educação da agência ambiental de Pernambuco.

O filme não mudou. Continua o mesmo quanto à dificuldade, senão a impossibilidade, de neutralizar a natureza socialmente excludente e ambientalmente degradadora deste modelo de ‘desenvolvimento’ adotado mundo afora (e Adentro!, como se diz em Teixeira, a minha ilha das coordenadas subordinadas, também, política e economicamente). Um modelo estupidamente suicida que mina e corrói o tecido social. Não só o tecido, mas também o fio e o tear; que queima e consome a pele, a tez social.

E como teorizou Roberto Freire, não o político do PPS (Partido Pseudo-Socialista) mas o psicanalista da somaterapia (Joaquim Roberto Corrêa Freire: São Paulo, 1927; São Paulo, 2008), “Sem tesão não há solução”.

Vale lembrar que ao criar Ilha das Flores Jorge Furtado teria se inspirado em Kurt Vonnegut (livro “Almoço de campeões”) e em filmes de Alain Renais - a exemplo de “Meu tio da América”.

É, o filme Ilha das Flores não mudou. E o esporte também não, como não deveria tê-lo. O futebol é que driblou mecanicamente o esporte, atrelando-o redondamente, por um viés pragmático de mercado, à lógica utilitarista de consumo. E a bola, chutada a gol, desce precisa e redonda, embebida em cerveja e gasolina, goela abaixo de todos nós. De “todos nozes”, como ‘trocadilha’ o meu filho Igor.

Mas o esporte, para ser criativo, precisa ser livre. Livre e natural. Sem padrões estáticos, mas também sem desvios genéricos (G) ou transgênicos (OGM). Fosse para ser transgênico e estaríamos aqui falando d’O mundo segundo a Monsanto, o documentário de Maria-Monique Robin (Le Monte Selon Monsanto, 2008).

Não. O esporte, tão importante em nossas vidas, não existe preso às amarras dos dribles descartáveis da modernidade. E por isto não mudou em sua essência. Nós é que devíamos ter mudado e não mudamos. Não mudamos nosso jeitão dunga de viver. Este jeito estúpido e zangado de ser. Nós todos estamos dungados. Mas não fomos dungados por Dunga, pois o próprio Dunga também o foi. Fomos dungados, inclusive o Dunga, por um modelo suicidamente equivocado de ser.

Chegamos ao fim da Copa. Mais uma Copa de colagem de interesses.

E, feito este texto, a vida também é uma colagem. Uma colagem cósmica.

Guarujá, 11 de julho de 2010.

(Martim Assueros. De Copa, livros, filmes, flores e lixo. #6/7. SP, jul 2010)

Última atualização em Seg, 26 de Julho de 2010 02:38
 
 
     

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